Repensando o Brasil

Repensando o Brasil

No fim do mês de agosto passado, ocorreram dois eventos no Brasil, de suma importância para melhor entender o atual momento político/econômico/social porque passam o país e o resto do mundo, bem como suas inter-relações, visando traçar variados cenários. No período de 27 a 29/8, ocorreu na aprazível Campos de Jordão, a 7º Edição do Congresso Internacional de Mercados Financeiros e de Capitais, organizada pela BM&F Bovespa.

A situação  fiscal e respectivos desdobramentos nas diversas variáveis macroeconômicas, incluindo a China e alta dos juros norte-americanos, foram os principais temas abordados por muitos especialistas. Delfim Neto afirmou: “Estamos em um esforço de guerra, mas já perdemos a guerra”. Pedro Parente (ex-ministro) e atual Presidente do Conselho de Administração da Bolsa de Valores, criticou a contradição entre a exigência de sacrifícios da população pelo aumento de impostos, elevação de preços e prolongamento da recessão e a ausência de um projeto para o Brasil, “que tem tudo para  se  aproximar dos líderes globais e não faz isso por nossa exclusiva responsabilidade”. Affonso Pastore, economista de formação ortodoxa e um dos mais respeitados e competentes ex-presidentes do BC afirmou que o Brasil está na “soleira da dominância fiscal”, situação onde um grave problema fiscal impacta a economia, afrouxando a eficácia da política monetária, no tocante a combater a inflação e a volatilidade cambial.

O físico e economista Samuel Pessoa (Ibre) enfatizou a existência da armadilha fiscal provocada pelo crescente e incontrolável impacto das despesas previdenciárias e sociais. O cenário futuro considerado pelos 3 especialistas inclui a expectativa de que a inflação, depois da queda esperada em comparação com os picos atuais, volte a subir acima do teto da meta de 6,5%. Afirmam que a inflação não vai descontrolar-se, mas vai crescer e aí o governo arrecada novo imposto, o inflacionário e a senhoriagem. Quanto à trajetória da Dívida Pública, deve  alcançar 70% do PIB em 2018, e o país terá ajuste com inflação ou mais impostos.

Em 31/8, ocorreu em São Paulo, o já tradicional EXAME FÓRUM “Prepare-se para Planejar 2016 e Superar a Crise – Como o Brasil vai Reconstruir as Bases do Desenvolvimento”. A edição deste ano começou com uma brilhante exposição feita pelo juiz Sérgio Moro, a respeito da condução da Operação Lava-Jato e seus possíveis desdobramentos na Economia. Ricardo Sennes, economista e cientista político, afirmou que “o Brasil passa por um período de crise política, mas não institucional, e boa parte decorrente da natureza de seu sistema político. E que a origem da crise política é anterior à crise econômica, mas derivada da Lava-Jato. Terminou sua preleção afirmando que “ainda que a eleição presidencial de 2018 esteja relativamente distante, não despontam até o momento, tanto no governo quanto na oposição, lideranças capazes de concorrer e vencê-la com folga”. João Augusto Nardes, ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) afirmou que a estrutura da Administração Pública brasileira favorece a ineficiência e a corrupção, pois o modelo que o Brasil adota permite que questões partidárias se sobreponham ao interesse público. Por isso, o Brasil administra o dinheiro público de forma tão amadora. Enfatizou que, há muitos anos, o tribunal vêm alertando o governo a respeito do fato de que as contas nunca fecham (uso descarado da chamada Contabilidade Criativa ou pedaladas fiscais). Terminou sua explanação afirmando que é imperativo mudar o modelo da Administração Pública, senão, o ajuste fiscal não funcionará novamente. E, que, como o serviço público não é avaliado nem monitorado, não há espaço para a meritocracia (que é a única maneira de premiar os mais capacitados e descartar os preguiçosos e incompetentes).

Abílio Diniz dissertou sobre os desafios e experiências de sua extensa vida empresarial e conclamou os brasileiros a continuar trabalhando duro, já que o país é mais forte que qualquer adversidade política.

Nos 2 eventos, a mesma mensagem foi transmitida aos participantes. O Brasil só tem uma saída para desenvolver-se de forma sadia e contínua: menos Estado e mais Mercado.

Fernando José Martha de Pinho, Economista.

2 comentários em “Repensando o Brasil

  1. Fernando, só uma pessoa de mente limpa e aberta como você, poderia ser capaz de comentários tão objetivos. Parabéns. Gostaria de comentar que aquilo que o Ricardo Sennes diz “que não vivemos uma crise institucional”, para mim, vivemos sim. O EXECUTIVO executa (ou deveria executar dentro das leis), o LEGISLATIVO cria as leis e o JUDICIÁRIO julga e faz a lei ser cumprida (ou deveria fazer). Pergunto: quem controla o que? O EXECUTIVO? que “manda” nos Tribunais de Contas? Está errado. Falta uma “quarta perna” nesse modelo, pois vira e mexe, vivemos “caindo”, ou seja, passando por nova crise, em função de desmandos financeiros. Deveríamos criar um quarto poder: O CONTROLATIVO (ou outro nome qualquer), com a missão de fazer controle dos orgãos públicos. Deveria ter recursos próprios e agir nos moldes que o Judiciário, ou seja, sem subordinação ao governo ou ao congresso. Devemos extinguir os Tribunais de Contas, um complexo lotado de apadrinhados indicados para não encontrar nada de errado, por parte daqueles que o indicou, ou daqueles “amigos” de quem o indicou. Muita coisa mudaria, com certeza, nesse país. Abraço

    1. Prezado Curiel, como vai? Concordo absolutamente com tudo que você ponderou. Penso que não exista país do mundo, dito capitalista e democrático que tenha um cipoal maior que o nosso de leis, controles e tribunais para fiscalizar outros tribunais. Infelizmente, falta o insumo principal: ética.

      Você, como profissional experiente na área de auditoria e controladoria, sabe que não há nenhum nível de controle que possa evitar, de maneira absoluta, o ímpeto de pessoas desonestas. Um abraço, Fernando Pinho.

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